domingo, 24 de maio de 2009

Questionário sem resposta


O que me dói, o que me dá, o que me custa, o que me intimida, o que me ‘encovarda’, o que me diminui, o que me envergonha, o que me faz temer, o que me ‘medilcra’, o que me faz retroceder, o que me faz reclamar, o que me faz indagar, o que me faz negar, o que me faz falhar, o que me faz quase vangloriar, o que me faz rezar, o que me faz suplicar, o que me faz ignorar, o que me faz não ajudar, o que me faz não socorrer, o que me faz não salvar? É o que não é direito nem nunca será ¹ !

¹ Chico Buarque – O que será

Rosália Souza

Eventualidades diárias e constantes


Contraí a face no intuito de bloquear totalmente a visão e me inserir numa consciência de fé descontrolada e dissimulada. Assim rezei, assim não enxerguei. Mas era tarde apenas para os meus olhos, nos meus ouvidos os estalos se encruaram: foram dois, secos e fatais, desencadeando o cheiro de crime, a cor viva, a textura e a viscosidade. Às ordens da cinética, algo escorreu para os meus pés, reagindo em mim como uma osmose socio-patológica. Entre o choque e o desespero, o silêncio que precede o esporro ¹. Os gritos, choros, prostrações da alma, que são gritos ardentes não auditivos. O medo, catexia dos processos! Que sempre esteve, está e determina, toma conta. Três conseqüências são certas: a vitalidade não lhe retornará às veias, mais um medo foi arquivado para cada expectador e a socio-patologia se solidifica todo dia um pouquinho mais, no horário e momento inesperados.

¹ O silêncio que precede o esporro, CD do Rappa

Rosália Souza

sexta-feira, 20 de março de 2009

Ao nosso amor, parte enésima

“Era fim de tarde. O céu estava de um dourado incrível, idealizado especialmente para emoldurar tua imagem apaixonada. Não consigo esquecer os teus olhos gentis, acompanhados de um tímido sorriso amante, daquele dia. Tua face transbordava uma tranqüilidade como nunca se via. Eu não queria e não podia te perder naquele momento. A paz da tua companhia me inundava a ponto de, literalmente, esquecer qualquer coisa. Naquele instante, tudo se tornou atemporal, de modo que eu não tenho ideia de quanto tempo fiquei admirando tua bela face, te amando com todos os meus sentidos. Nem sonhava que em pouco tempo eu não iria mais me sentir e te sentir daquela forma. Nem sonhava que mais uma vez eu e você seríamos as pessoas certas na época errada. Nem sonhava que o amor cairia doente ¹, que o nosso mais que perfeito estaria desfeito ² e cada um estaria em seu quarto, silencioso, vazio e enorme“.

¹ Referência a música Todo o sentimento, Chico Buarque.
² Referência a música Pois é, Chico Buarque.

Rosália Souza

quarta-feira, 23 de abril de 2008


Eu não tenho o quê fazer, por isso me ponho a chorar. Não tenho o quê ou a quem escutar, por isso ponho minhas músicas que sempre roubam um pedaçinho de mim. E esses pedaçinhos não sei por onde se perdem, só sei que a cada dia sou cada vez menos eu. E vou assim... Me tornando não sei o quê, não sei pra quem, não sei porquê.
Pegar em um papel e uma caneta tem sido medilcre como um viciado que olha tentadoramente para sua droga: não querendo afastar, mas supeitando que deve; não com culpa, e sim com dó de si próprio; não com tristeza, sim com uma estranha solidão sendo compensada. Todos os dias de manhã quando me olho no espellho(nesse momento sou até confiante - em não sei o quê!), não sou isso que descrevo, mas é o que sou nas noites cheias de silêncio e frieza, assombrada de lembrança boas. E daí, durmo, os dias se seguem, não sei como. Hermeticamente, prossigo.

Rosália Souza

ps. Thom Yorke na foto.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Um domingo


Eu vi uma mulher de passos vagarosos, olhos cansados e lábios espremidos. Era um retrato de uma grande saudade, aquela velha vagueza que não há bebida que supra, pois esta evapora, não há cigarro, pois se espalha e some, não há nem mesmo um novo tipo de amor porque são todos fugaz, de pequenos momentos. Só há lembranças daquele velho amigo. Ela tenta, mas essa falta é bem maior e não cabe dentro de si, esborra nas caminhadas, nos choros e nas contrações da alma. Que falta que lhe faz o bom velho.


Eu vi uma jovem de olhos brilhantes e úmidos, um acanhado sorriso de esperança no cantinho da boca. Encontrava-se distraída na cama, observando o movimento dos familiares. Entendi que na verdade ela carpia a ausência do amado, e esperava que um dia ele voltasse. Permanecia quietinha, como se não tivesse ações, apenas reações motoras. Destino a ela a tolice da alegria e o encanto do amor. A verdade lhe causaria um colapso e seu sorriso se transformaria em lágrimas de amargura.

Eu vi uma criança, que como todas as outras, era movida por prazeres. Senti saudade da época em que era pequena e meu mundo era de paz, alegrias e desejos. Temo pelos seus primeiros não - lembro dos meus até hoje-, pelas rasteiras da vida, pelas maldades que cometerão contra ela, e maldades essas que para se defender ela também vai aprender a ter um pouco. Que teu caminho seja límpido, criança, e que tuas loucuras te levem a uma sabedoria útil.

Hoje eu vi um relógio correr, entre sorrisos, bebidas e distrações..
Perdão! Na verdade vi três relógios correrem...



Rosália Souza.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007


Tenho experimentado todos os desesperos, passado por todas as loucuras, vagado na escuridão do abismo de pensar e sentir. Tenho às vezes me enganado fugindo, me distraindo, mas sempre volta, jogando-se em meus braços.. E eu enojada tentando me largar deste infortúnio. Permito me lançar à navegar em sorrisos embriagados e sujos do insuficiente.


Rosália Souza