quarta-feira, 1 de julho de 2009

Versos teus



“Estes versos repletos de ternura são
versos meus, mas que são teus”.
J.G de Araújo Jorge.

Não me reconheço quando me pego de lábios contraídos involuntariamente enquanto penso em ti, quando tanto me encanto enquanto entrelaças teus dedos nas tuas madeixas de raio de sol, que partindo a luz revela as sete cores dos sete mil amores ¹. Não sei quem me torno a não lembrar do tempo enquanto relembro tuas feições, enquanto ignoro minhas responsabilidades sem o menor constrangimento e ao desviar o olhar assim fixamente quando abres a porta. Sei menos ainda que danos me venham alcançar caso meus olhos não possam enamorar os teus em contemplação estática, caso meus lábios não constatem a doçura que julgo ter os teus.

¹ Música Luiza de Tom Jobim


Rosália Souza

ps. Jeff Buckley na foto

sábado, 20 de junho de 2009

Encantos de Junho



Depois de certo tempo imersa em pensamentos banais, atentei para o espectro aurífero que inundava o quarto. De espanto, abri as janelas: o céu cobria-se de uma vestimenta encardida, os ventos eram fortes e as folhas agitavam-se, igualmente a mim, espantadas.O vizinho insistia em escutar o velho Gonzaga, sem se preocupar com a janela aberta que deixava entrar toda a ira divina.

“Nasci em meio a essa ventania”, lembrei-me! E enquanto lembrava e formulava um verso para aquele retrato, ela veio, silenciosa e anunciada, com seus membros diretos e impactantes, com sua tenacidade dissimulada e sua natureza deslumbrante. Quis molhar a face, recordando, quando, aos meus 12 anos, por volta, eu a esperava na rua, de olhos e peito abertos, e não como hoje, aos quase 18, atrás de uma grade, escondida ao canto da janela, admirando-a distante como algo intocável e cortante.

Antes eu sentia tudo como textura, hoje eu descrevo ternura: a imagem que os sons, os sentidos e os sentimentos me passam. Não me sinto mais triste nem mais feliz, só diferentemente encantada.

O prazer se renova, se revigora, se translada, mas sua essência é irrevogável.


Rosália Souza


sexta-feira, 5 de junho de 2009

Palavra, a maior das belicosidades


Enquanto houver vírgula
a poesia não finda.
Ideias a ter,

mãos a escrever.


Enquanto não houver esforço

haverá o eterno marco zero;

o ponto de empaque

o sentimento de um estorvo.

Enquanto houver pensamento
a estática é utópica,
barata, hipócrita.


Enquanto há vírgula
há império da vida,

a mudança se destina.

Rosália Souza

domingo, 24 de maio de 2009

Questionário sem resposta


O que me dói, o que me dá, o que me custa, o que me intimida, o que me ‘encovarda’, o que me diminui, o que me envergonha, o que me faz temer, o que me ‘medilcra’, o que me faz retroceder, o que me faz reclamar, o que me faz indagar, o que me faz negar, o que me faz falhar, o que me faz quase vangloriar, o que me faz rezar, o que me faz suplicar, o que me faz ignorar, o que me faz não ajudar, o que me faz não socorrer, o que me faz não salvar? É o que não é direito nem nunca será ¹ !

¹ Chico Buarque – O que será

Rosália Souza

Eventualidades diárias e constantes


Contraí a face no intuito de bloquear totalmente a visão e me inserir numa consciência de fé descontrolada e dissimulada. Assim rezei, assim não enxerguei. Mas era tarde apenas para os meus olhos, nos meus ouvidos os estalos se encruaram: foram dois, secos e fatais, desencadeando o cheiro de crime, a cor viva, a textura e a viscosidade. Às ordens da cinética, algo escorreu para os meus pés, reagindo em mim como uma osmose socio-patológica. Entre o choque e o desespero, o silêncio que precede o esporro ¹. Os gritos, choros, prostrações da alma, que são gritos ardentes não auditivos. O medo, catexia dos processos! Que sempre esteve, está e determina, toma conta. Três conseqüências são certas: a vitalidade não lhe retornará às veias, mais um medo foi arquivado para cada expectador e a socio-patologia se solidifica todo dia um pouquinho mais, no horário e momento inesperados.

¹ O silêncio que precede o esporro, CD do Rappa

Rosália Souza

sexta-feira, 20 de março de 2009

Ao nosso amor, parte enésima

“Era fim de tarde. O céu estava de um dourado incrível, idealizado especialmente para emoldurar tua imagem apaixonada. Não consigo esquecer os teus olhos gentis, acompanhados de um tímido sorriso amante, daquele dia. Tua face transbordava uma tranqüilidade como nunca se via. Eu não queria e não podia te perder naquele momento. A paz da tua companhia me inundava a ponto de, literalmente, esquecer qualquer coisa. Naquele instante, tudo se tornou atemporal, de modo que eu não tenho ideia de quanto tempo fiquei admirando tua bela face, te amando com todos os meus sentidos. Nem sonhava que em pouco tempo eu não iria mais me sentir e te sentir daquela forma. Nem sonhava que mais uma vez eu e você seríamos as pessoas certas na época errada. Nem sonhava que o amor cairia doente ¹, que o nosso mais que perfeito estaria desfeito ² e cada um estaria em seu quarto, silencioso, vazio e enorme“.

¹ Referência a música Todo o sentimento, Chico Buarque.
² Referência a música Pois é, Chico Buarque.

Rosália Souza

quarta-feira, 23 de abril de 2008


Eu não tenho o quê fazer, por isso me ponho a chorar. Não tenho o quê ou a quem escutar, por isso ponho minhas músicas que sempre roubam um pedaçinho de mim. E esses pedaçinhos não sei por onde se perdem, só sei que a cada dia sou cada vez menos eu. E vou assim... Me tornando não sei o quê, não sei pra quem, não sei porquê.
Pegar em um papel e uma caneta tem sido medilcre como um viciado que olha tentadoramente para sua droga: não querendo afastar, mas supeitando que deve; não com culpa, e sim com dó de si próprio; não com tristeza, sim com uma estranha solidão sendo compensada. Todos os dias de manhã quando me olho no espellho(nesse momento sou até confiante - em não sei o quê!), não sou isso que descrevo, mas é o que sou nas noites cheias de silêncio e frieza, assombrada de lembrança boas. E daí, durmo, os dias se seguem, não sei como. Hermeticamente, prossigo.

Rosália Souza

ps. Thom Yorke na foto.